Quantas vezes você já viu um tutor retornar ao consultório com o cão ou gato, pela terceira ou quarta vez no mesmo semestre, por causa de uma secreção purulenta e um odor característico vindo das orelhas? A cena é recorrente: o animal balança a cabeça freneticamente, coça as orelhas até ferir e, após a limpeza e o uso de gotas otológicas, o problema parece desaparecer, apenas para voltar com força total quinze dias depois. Se o tratamento tópico resolve o sintoma, por que a inflamação insiste em retornar? A resposta costuma estar longe do conduto auditivo. O erro de tratar apenas a superfície A falha mais comum no manejo das otites externas é tratar o ouvido como uma entidade isolada. Quando focamos apenas no agente infeccioso — seja uma bactéria como Staphylococcus pseudintermedius ou a levedura Malassezia pachydermatis — estamos enxugando gelo. Esses microrganismos são, em sua grande maioria, oportunistas. Eles aproveitam um terreno que já está alterado para proliferar. Imagine o conduto auditivo como uma barreira física e imunológica. Quando essa barreira é quebrada por um processo inflamatório subjacente, o pH local muda, a umidade aumenta e a proteção natural da pele se perde. O ouvido vira um ambiente perfeito para a cultura de fungos e bactérias. Se você não identificar o que causou essa quebra de barreira, o ciclo de inflamação e infecção nunca será interrompido. A investigação além do otoscópio Na maioria dos casos de otite crônica ou recorrente, o “vilão” é uma doença de base que afeta a pele como um todo.
As alergias são as principais suspeitas. A dermatite atópica canina, por exemplo, frequentemente se manifesta primeiro nas orelhas e nas patas antes de evoluir para outras áreas do corpo. O animal sente prurido, a pele fica inflamada, o sistema imunológico entra em alerta e, pronto: o ambiente está pronto para uma otite externa. Outro fator que muitos tutores negligenciam é a dieta. As alergias alimentares não causam apenas distúrbios digestivos; elas provocam reações inflamatórias sistêmicas que se refletem diretamente na saúde tegumentar do animal. Se o seu paciente é um Golden Retriever ou um Bulldog Francês, raças com predisposição anatômica por terem condutos estreitos ou orelhas pendulares, a situação se agrava. Nesses animais, qualquer leve irritação alérgica causa uma obstrução rápida, tornando a limpeza natural do cerúmen impossível e retendo toda a sujeira lá dentro. Além das alergias, precisamos olhar para as endocrinopatias.
Animais com hipotireoidismo ou hiperadrenocorticismo apresentam uma renovação celular cutânea deficiente. A pele perde sua capacidade de defesa e o ouvido sofre as consequências. Se o cão não está bem metabolicamente, o ouvido raramente estará saudável. Como quebrar o ciclo de sofrimento O primeiro passo para o sucesso é parar de trocar apenas a medicação tópica. Se a otite é recorrente, é hora de investigar o histórico completo. Pergunte ao tutor sobre a sazonalidade dos sintomas, a qualidade da ração, o uso de petiscos e se há sinais de lambedura de patas. Às vezes, uma dieta de exclusão ou um exame de sangue para verificar a função tireoidiana nos dá a chave do problema que a citologia do ouvido nunca revelou. A estratégia de tratamento deve ser multimodal. Enquanto tratamos a infecção ativa para dar conforto ao animal, precisamos controlar a inflamação crônica e, simultaneamente, atacar a causa primária. O uso de agentes anti-inflamatórios sistêmicos em doses curtas, associado a uma dieta hipoalergênica ou ao manejo de uma possível disfunção hormonal, costuma trazer resultados muito mais duradouros do que a aplicação infinita de pomadas otológicas. O ouvido saudável é reflexo de um organismo equilibrado; tratar a otite é, antes de tudo, entender o paciente como um todo. https://www.mascotefit.com.br/blog/cachorro-pode-comer-manga